quinta-feira, 15 de julho de 2010

No hoje começa a liberdade... no ontem acaba a prisão... no amanhã começa a saudade do que já foi e do que já passou. Perco a vontade de uma infância entusiasmada... perco a vontade de um futuro que brilha. Simplesmente, tudo ficou por dizer... tudo ficou para fazer. Tenho vontade de tentar. Mas será que chega? Será que é isso que realmente quero? Sou forçada a isso... arrasto meus pés descalços pela areia de cinzas mal ardidas. Com os meus cabelos faço tecidos. Com meus pés, um perfume. Com minha mão, uma fita de cabelo! Cada pedaço de mim não me pertence. Cada gaivota no céu é um pouco mais de terra, um pouco mais de toda uma nação. Cada árvore, com sua suave sombra, é um pouco de oxigénio que origina a luta de toda uma população. Há quem lute por uma gota, há quem lute por uma migalha, há quem lute por centímetros de um velho cobertor... Há também quem deixe de lutar e se entrega ao destino, com a perspectiva de que este lhe dê tudo o que necessita... ou que lhe dê... o vazio! Um sonho que fugiu quando não adormeci. Uma palavra ou frase feita, quando não consigo falar. Um toque da tua pele, quando não consigo sentir. Um pouco de ar quando não respiro. O sopro de uma vida numa cidade que adormeceu, no campo que não se cultiva. A tristeza de um ribeiro sem água, uma montanha sem neve, uma árvore sem fruto, uma mulher sem ter o filho que tanto ambiciona... O sentimento de perda de algo que nunca existiu e que não pode existir. A lua que espera pelo sol e que só o encontra no eclipse que não dura e que ocorre tardiamente. E, talvez, nesse encontro que tanto esperavam, a lua tenha sido quebrada, tenha caído ou simplesmente faltou... O sol fica vermelho de cólera, as nuvens choram um amor que se perdeu. O vento suspira uma bela história de amor... E, após tanto tempo, quando os ponteiros parados recebem ordem para avançar, a lua espreita, atira um beijo, e volta a se retirar. O sol, amarelo novamente, rende-se a anos de solidão, uma espera que nunca acabou. Surge o silêncio, a melhor forma de expressão. A casca de uma noz que vagueia no alto mar. Meus pés errantes que percorrem o caminho até onde se encontramos, até onde posso sentir o teu aroma. Tua face iluminada pelas luzes de um passado onde não pertenço. onde não quero pertencer. O palpitar do teu coração que é lento, rápido, fogoso... Percorro meus dedos pelo teu passado que não me deixas tocar. Percorro meus dedos por um futuro incerto, onde nada é previsível, onde não existem preposições de ordem geral; leis que vigorem em todo o tempo e em todo o espaço. Perdes a noção de que nada está em harmonia, que não existiu, existe ou existirá uma concórdia. Que cada folha arrastada pelo Outono não sobrevive ao Inverno e é diferente da que vai surgir na Primavera. Que cada fruto de cada época do ano, cai e acaba por apodrecer se não for consumido, se não se lhe der utilidade. Tudo necessita de ser útil. Tudo necessita de ser diferente... O que pode matar pode dar a vida. Para se prevenir uma doença é necessário ser vacinado com esta. Para se morrer é preciso viver. Para se sorrir é necessário ter boca... para se amar é necessário ter sentimentos... E eu, não os tenho e não os posso ter... não os posso ter pois não os quero ter. Tudo muda... tudo flui... tudo ou nada se transforma?

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