domingo, 27 de junho de 2010

"Relâmpago extinto"

Ó chuva, por que não te acalmas
deixando a magia do luar?
Bates forte nas almas,
fica sómente o trovejar...

Bates lentamente, sem calmas,
deixando-me triste a chorar...
As minhas mãos? Apunhalam-mas!
Sem ter, a quem, com elas, tocar...

Por que és tão triste, meu destino?
Acredita, que eu desatino!
Os passos vagueando como trovões...

O vento, arrastando as folhas,
imagens com que sonhas...
despedaçando assim os corações!
"Palavras soltas"

Tu; mais forte, mais frágil, mais maravilhoso
que a rocha, cristal, fantasia ou o obscuro...
tudo fica triste, pensativo, pobre; e procuro
a lágrima, a linguagem, a riqueza e o formoso.

Nunca se viu algo tão lindo, tão mágico, como uma açucena,
(voando ao longe, dançando, como uma ave)
claro o céu, pôr-do-sol, luz serena...

És mais que céu, pôr-do-sol, luz grave,
lágrima, linguagem, riqueza, selvagem hiena,
chuva quente, vulcão ardente; anjo suave.
O tempo passa,
ligamos a televisão, lemos o jornal...
coisas que pertencem ao passado...
tudo o que se liga já foi desligado,
tudo o que se aprende já foi ensinado.
Se, por um instante, não saberes onde pertences;
se o teu presente fôr o instante do futuro,
se o fruto colhido é verde e já foi maduro
é porque acordaste de um longo sonho...
e deixaste o pesadelo longínqueo e medonho.
Se conseguires ver o que ninguém viu,
se vires chegar quem nunca partiu,
se conseguires alcançar o que ninguém desejou...
és apenas parte de algo que alguém sonhou.
Acredita mais em ti e menos no teu "eu",
esse "eu" que, talvez, já morreu.
Deixa o que não importa e segue o que sentes...
ainda que o teu faro seja tudo em que acreditas.
Se dizes a verdade e julgas que mentes,
se achas que as palavras são cruéis e malditas
então não fujas e enfrenta as cores do céu...
existem muitas verdades escondidas nesse teu véu.
"Uerba volent, scripta manent" (a fala voa, a escrita permanece)

As palavras voam como aves.
Algumas duras e brancas, todas fugazes.
Desaparecem rápidamente após serem ditas.
O mesmo não acontece com as que são escritas.
Permanencem e duram como grandes troncos,
como os templos ou as ruínas de Alexandria.
Na grande biblioteca de Pérmaso, fugidia,
surgem grandes letras, nomes, volumes.
Palavras que são chamas em grandes lumes,
os lumes da nossa razão.
Ressurgem em cadernos amarelecidos,
que no princípio aparecem esquecidos
e depois chegam a mudar nosso coração.
Quantas ideias perdidas no ar
quando não escrevemos e estamos só a falar?
Lembra-te que os guerreiros corajosos
tornaram-se eternos
através de feitos gloriosos
registados em cadernos
de grandes prosadores!
"uerba uolant, scripta manent".


"Rosa com espinhos"

Contemplei uma rosa perfumada...
Ao querê-la, um dia, só para mim,
por não querer colocar ao seu cheiro um fim,
nos seus picos eu fui picada...

Apesar de estar ferida e machucada,
com uma dor intensa que se arrasta,
eu espalhei-a ao vento que se afasta.
Sem pensar em ti, sem pensar em nada!

Mais tarde eu consegui compreender
que tu eras aquela rosa encarnada.
Por tentar, só para mim, te ter,
por ti eu fui rejeitada.
"Sonho realista"

Um sonho de meu agrado
veio suavemente, tendo encontrado
meus olhos fechados e o engenho
de ver nos sonhos o meu amado.

Sem criticar minha imaginação,
desceu suavemente ao meu coração
tentando com muito empenho
não alterar minha reflexão.

E é assim naquela aventura,
que demenstra a minha loucura,
que as esperanças deixei de ter.

Porque nesta realidade dura,
a esta doença sem cura
só lhe resta, no ar, se desvanecer.
Memórias de um átomo

Sou um átomo, no ar arrastado,
voando sem rumo, neste tornado...
deixando as estrelas, o sol, tudo o que tenho
nesta ponta de fio emaranhado.

Rodopio nos papéis, já gastos, duma canção,
palpito nas veias ardentes, no coração...
Sou a luz, o livro, que entretenho,
sou da escola, o quadro, a lição...

Sou a nascente, a água, a rocha dura;
Sou, dos guerreiros,a valentia e a bravura.
A caneta, daqueles que sonham, ao escrever...

Sou a lágrima escorrendo na pintura,
sou o ser, antepassados, a gravura...
nesta ânsia amargurada de te ter.


Este desenho foi feito pela minha querida irmã Marta Fernandes.



¨O Caminho¨

Este meu coração ferido
onde as lembranças estão gravadas,
não se dá por vencido
pelo tempo, pelas horas já passadas.

Podendo chegar a um acordo,
os meus sentimentos, minha experiência,
reunem-se neste caderno em desacordo
com a tristeza da minha existência.

Neste caminho da vida, tão estreito,
uma coisa especial eu confesso:
uma dor invade o meu peito.

Não posso esquecer o progresso
que tomei em um caminho direito,
sigo em frente, sem regresso.
¨A busca¨


Por entre as palavras conjugadas
em um papel branco e novo,
demonstro esperanças renovadas
e uma imaginação fértil na qual me movo.

Eu tento fazer o impossível
para poder deixar esta solidão,
que avassala a minha mente sensível
deixando-me a mágoa sem outra opção.

Mas eu detecto uma ausência
de algo que me possa libertar
das más memórias desta experiência.

Que eu possa lá ao longe encontrar
outras culturas, outra ciência,
que me façam a paz e a liberdade alcançar.

Esta é a fotografia de um lago.
Um lago com àrvores à volta, com peixes a nadar.
As cores do céu reflectem-se na água;
o sol brilha com esplendor.
Esta é a fotografia de um lago
tirada numa tarde de Inverno,
onde a água, gelada,
serve para patinar e sentirmo-nos
mais felizes, mais livres, mais nós mesmos.
As árvores já não têm folhas,
os peixes já não nadam mais...
Esta é a fotografia de um lago,
um lago em pleno Verão.
As pessoas banham-se nas suas águas;
as crianças riem com facilidade.
As árvores são frescas, dão sombra.
Os peixes saltam com energia.
Esta é a fotografia de um lago...
e, se reparares com atenção,
se procurares não achar nada ou ninguém
em específico;
ver-me-ás na fotografia;
bem lá dentro...
prestes a me afogar.

Chove lá fora, fazendo-se sentir na vidraça toda a força de um aguaceiro matinal que faz ocultar o sol, qual jogo de escondidas. E, por segundos, relembro todas as lágrimas que brotei na minha vida, ou as que gostaria de ter chorado.
Elas estão caindo lá fora, com o peso do granizo, molhando tudo e todos, devastando por onde passam. Têm a força de um tornado, como a força da coragem que me fazia levantar todas as manhãs e encarar um novo dia. Ouvem-se os relâmpagos agora, que bramem nos céus como os gritos que eu abafava na minha alma, fazendo força para não explodir... Sabes, esta chuva não é real. Procuro-a novamente onde quer que esteja, mas ela apenas durou uns minutos... Ela passou e no entanto, após ter terminado já ninguém se lembra da sua presença. Foi há muito tempo, faz hoje dezasseis anos e alguns meses.
Porém parece que essa melodia, esse coro angelical que resplandecia sua voz enquanto as folhas e flores se humedeciam, ficou longo tempo tocando na minha mente, como uma doce e revoltada música de Lizt. Ainda sinto o seu esplendor, seu odor de terra lavrada, a nada comparável... Sim, quero observar esse momento em que todo o mundo parou a olhar para algo frio, algo gelado, que vinha do céu, e que fazia as suas faces terem uma expressão de terror. Então uma pomba voou, erguendo no céu uma dança eterna, mostrando umas folhas de árvore. Sorri, então, meigamente, e olhei em volta vendo as poças de água, e dentro delas o árco-íris.
Paro para pensar. O que me restou? Estou só, sento-me nestes pedaços velhos de madeira e relembro. Não existe mais ninguém: apenas eu e a minha melancolia. A um canto, vejo pela janela do tecto o céu azul, límpido. Ouço ainda a chuva caindo lentamente, infinitamente... Está escuro agora, acendo uma lanterna. Pensam que perdi o juízo, talvez tenham razão. Escapou um gato preto que se senta agora ao meu colo, pensando, afago-lhe o pêlo. Restam-me alguns meses de exílio.
O meu nome?... Noé!
Olá a todos!
Decidi criar este blog para escrever os meus poemas, os meus pensamentos, os meus desabafos... Afinal vivemos num tempo em que se devemos preocupar com a Natureza e a reciclagem e nada melhor do que um blog para poupar um pouco de papel... ;)
Estes poemas foram escritos alguns recentemente, mas muitos já há alguns anos atrás.
Este blog é para todos aqueles que necessitam de nascer de novo, a fim de descobrir o verdadeiro sentido da vida.
Espero que gostem.