domingo, 27 de junho de 2010


Chove lá fora, fazendo-se sentir na vidraça toda a força de um aguaceiro matinal que faz ocultar o sol, qual jogo de escondidas. E, por segundos, relembro todas as lágrimas que brotei na minha vida, ou as que gostaria de ter chorado.
Elas estão caindo lá fora, com o peso do granizo, molhando tudo e todos, devastando por onde passam. Têm a força de um tornado, como a força da coragem que me fazia levantar todas as manhãs e encarar um novo dia. Ouvem-se os relâmpagos agora, que bramem nos céus como os gritos que eu abafava na minha alma, fazendo força para não explodir... Sabes, esta chuva não é real. Procuro-a novamente onde quer que esteja, mas ela apenas durou uns minutos... Ela passou e no entanto, após ter terminado já ninguém se lembra da sua presença. Foi há muito tempo, faz hoje dezasseis anos e alguns meses.
Porém parece que essa melodia, esse coro angelical que resplandecia sua voz enquanto as folhas e flores se humedeciam, ficou longo tempo tocando na minha mente, como uma doce e revoltada música de Lizt. Ainda sinto o seu esplendor, seu odor de terra lavrada, a nada comparável... Sim, quero observar esse momento em que todo o mundo parou a olhar para algo frio, algo gelado, que vinha do céu, e que fazia as suas faces terem uma expressão de terror. Então uma pomba voou, erguendo no céu uma dança eterna, mostrando umas folhas de árvore. Sorri, então, meigamente, e olhei em volta vendo as poças de água, e dentro delas o árco-íris.
Paro para pensar. O que me restou? Estou só, sento-me nestes pedaços velhos de madeira e relembro. Não existe mais ninguém: apenas eu e a minha melancolia. A um canto, vejo pela janela do tecto o céu azul, límpido. Ouço ainda a chuva caindo lentamente, infinitamente... Está escuro agora, acendo uma lanterna. Pensam que perdi o juízo, talvez tenham razão. Escapou um gato preto que se senta agora ao meu colo, pensando, afago-lhe o pêlo. Restam-me alguns meses de exílio.
O meu nome?... Noé!

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